EMDR
EMDR
(Eye Movement Desensitization and Reprocessing Therapy)
A terapia EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares) é usada para (1) ajudar o cliente a aprender com experiências negativas do passado, (2) dessensibilizar gatilhos presentes que perturbam a pessoa de forma indevida e (3) incorporar modelos para ação futura que permitam ao cliente realizar-se individualmente e dentro de um sistema interpessoal.
A terapia EMDR estimula a aprendizagem – quando o alvo é uma lembrança perturbadora, as imagens, crenças e emoções negativas tornam-se menos vivas e menos válidas.
Constitui-se numa abordagem abrangente que promove atenção às “imagens, crenças, emoções, sensações físicas, aumento da consciência, estabilidade interna, resiliência e sistemas interpessoais do cliente. Conduz a transmutação de experiências ruins em experiências de aprendizagem adaptativa com mudanças positivas em seus pensamentos e crenças, e cessarão as imagens intrusivas.
A memória envolvida parece assim se vincular a informações mais pertinentes: o cliente aprende a extrair o que é necessário e útil de sua experiência desagradável e o evento é restaurado na memória de forma adaptativa, saudável e sem distorções.
O resíduo disfuncional do passado sofre uma modificação espontânea em sua forma e conteúdo – incorporando insights e afetos que acrescentam algo ao cliente – ao em vez de autodepreciarem.
O objetivo inicial da Terapia EMDR é processar adequadamente as experiências que armazenaram uma memória emocional de forma desadaptativa, ajudando a liberar o ciente para viver o presente.
Quando a vivência de um evento é processada de forma adequada, lembramos dele, mas não experimentamos as velhas emoções e sensações no presente. Somos orientados em vez de controlados por nossas lembranças.
Mesmo eventos universais (“comuns”), como humilhações e decepções na infância, podem deixar efeitos negativos permanentes.
O papel específico da Terapia EMDR é ajudar a metabolizar os estressores que podem variar de incidentes críticos facilmente identificados, como estupros e agressões, até os considerados mais inócuos, como interações negativas com a família, colegas, professores e outros, que deixaram um efeito negativo duradouro.
Os neuropsicólogos do desenvolvimento demonstraram que a negligência e a falta de vinculação entre pais e filhos, na primeira infância, podem levar a déficits de organização cortical necessária para o autorrelaxamento e a autorregulação (Schore, 1997, 2001, 2015; Siegel, 2002, 2012, 2016).
Com a transformação da experiência perturbadora, há, simultaneamente, uma mudança na estrutura cognitiva, no comportamento, nas emoções, na sensação, dentre outros. A experiência clínica demonstrou que, uma vez reprocessadas as memórias específicas, o senso de autovalorização e autoeficácia do cliente muda automaticamente. Isso leva espontaneamente a comportamentos novos, incluindo o aprimoramento próprio.
A terapia EMDR reúne aspectos de diversas das mais importantes orientações psicoterapêuticas: a atenção a eventos etiológicos ressaltada pela terapia psicodinâmica (psicanálise), as respostas condicionadas conforme descritas pela terapia comportamental, o conceito de crenças tal como formulado pela terapia cognitiva, as emoções identificadas pelas terapias experienciais, as sensações corporais discriminadas pelas terapias somáticas, as visualizações das terapias hipnóticas e a compreensão contextual trazida da teoria sistêmica.
O paradigma do processamento de informação fornece uma abordagem integrativa que pode incluir e interpretar aspectos chave de diferentes abordagens terapêuticas, tais como psicodinâmica (psicanálise), terapia cognitivo-comportamental (TCC), Gestalt-terapia e terapias de bases fisiológicas.
O EMDR foi desenvolvimento, inicialmente, como uma terapia que ajudaria os clientes a integrarem novas e desejáveis elaborações pessoais, enquanto permitiria a rápida dessensibilização do trauma vivido. Além disso, o processo de reavaliação cognitiva, que inclui redefinir o próprio evento, encontrar sentido na experiência e aliviar assim a autorrecriminação, foi integrado como um aspecto importante do tratamento do EMDR. De tal forma, a abordagem foi estruturada para facilitar uma rápida integração entre novas informações, habilidades e enfrentamento e e comportamentos sugeridos pelo terapeuta. Tal qual a abordagem cognitivo-comportamental, o EMDR passou a incluir técnicas diversas, algumas delas se tornaram inerentes aos procedimentos integrativos do EMDR (Lazarus & Lazarus, 2002; Smyth & Poole, 2002; Young et al., 2002). De mesmo modo, a terapia EMDR também abrange aspectos de práticas experienciais (Bohart & Greenberg, 2002), da psicodinâmica (psicanálise) (Solomon & Neborsky, 2002; Wachtel, 2002), da somática (vaan der Kolk, 2014) e de inúmeras outras orientações de psicoterapêuticas importantes (Norcross & Shapiro, 2002; Shapiro, 2002ª; Zabukovec, Lazrove & Shapiro, 2000).
O uso da Terapia EMDR pode ser totalmente compatível com a maioria das orientações psicológicas conhecidas (Norcross & Shapiro, 2002; Shapiro, 2002b). A importância das memórias da primeira infância se encaixa claramente no modelo psicodinâmico (psicanálise) (Freud, 1900/1953; Jung, 1916; Wachtel, 2002) e a importância da atenção focada nas reações disfuncionais atuais e nos comportamentos é completamente consistente com os paradigmas de condicionamento e generalização do behaviorismo clássico (Salter, 1961; Wolpe, 1991). Além de ser uma abordagem centrada no cliente (Rogers, 1951), com uma forte base afetiva e experimental (Bohart & Greenberg, 2002; Greenberg, 2010; Greenberg & Safran, 1987), a terapia EMDR aborda o conceito de autoavaliação positiva e negativa, que tem raízes firmes no campo da terapia cognitiva (Beck, 1967; Ellis, 1962; Meichenbaum, 1977; Young, 1990; Young, Zangwill & Behary, 2002), e a ênfase nas respostas físicas relacionadas aos distúrbios apresentados pelo cliente (van der Kolk, 2002, 2014) é um elemento importante da plena utilização terapêutica do EMDR.
Tem sido empiricamente amparado por estudos controlados randomizados e passou a ser internacionalmente reconhecido como um tratamento eficaz contra o trauma e uma ampla variedade de transtornos provocados por experiências traumáticas.
O EMDR é mais conhecido e foi inicialmente batizado pelos movimentos oculares, que são uma parte dos procedimentos, e seus efeitos positivos foram agora confirmados pela metanálise de 26 ensaios controlados randomizados (Lee & Cuijpers, 2013). No entanto, os movimentos oculares são apenas uma das formas de estímulo dentro de uma terapia complexa que aborda um sistema integral de avaliação e intervenção.
Identificar os eventos que foram armazenados de forma disfuncional, que atrofiam e distorcem as percepções presentes do cliente (Shapiro, 2007, 2014a; Shapiro & Forrest, 1997/2016) e auxiliar no processamento destes eventos; 0 EMDR favorece o aprendizado em níveis emocionais, cognitivos e fisiológicos.
A distinção fundamental entre um evento processado de forma adaptativa e aquele disfuncionalmente armazenado é que, no primeiro caso, ocorreu o aprendizado adequado e a memória foi armazenada com as devidas emoções, capazes de guiar a pessoa no futuro. A memória disfuncionalmente armazenada ainda possui algumas das percepções sensoriais e pensamentos da época do evento. Basicamente, a pessoa ficou bloqueada e percebe o presente de um ponto de vista semelhante de desvantagem (por exemplo: “Não sou bom o suficiente”), falta de segurança ou falta de controle.
A terapia EMDR tem a capacidade de favorecer profundas mudanças terapêuticas em muito menos tempo do que se supõe tradicionalmente necessário, independentemente do tempo desde que o evento traumático ocorreu. No EMDR, a ênfase clínica é facilitar efeitos terapêuticos por meio da conexão adaptativa de redes neurofisiológicas associativas no sistema de processamento de informações. A proximidade dessas redes fisiológicas determina que os resultados do tratamento não precisam ser rigidamente limitados pelo tempo. Por exemplo, alguns estudos controlados indicaram que 84-100% dos casos de Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT) provocados por trauma único foram eliminados dentro de 4 a 5 horas após o tratamento.
(O texto acima é um compilado de trechos retirados das páginas 1 a 24 do livro:
EMDR: teoria de dessensibilização e reprocessamento por meio dos movimentos oculares. Autora: Francine Shapiro. Tradutores: Rafael Baliardo; Edson Furmankiewicz. 3a edição. São Paulo, SP: Amanuense, 2020.)